• Parada Literária

Usina - José Lins do Rego

Ciclo da Cana de Açúcar - livro 5: Usina (1936)

José Lins do Rego, o eterno menino de engenho, presenciou a modernização das cidadezinhas do Nordeste no início do século 20. Ele viu o mundo dos grandes engenhos e seus senhores ruir com a instalação de grandes usinas de cana de açúcar e seus maquinários modernos.

Com o dom peculiar de narrar que era só dele, o Brasil recebeu em 1936 o quinto livro de sua famosa saga: Usina.

Usina de cana de açúcar

No romance anterior, o belíssimo Moleque Ricardo, acompanhamos a saga do negro sentimental, que era só coração, e seu inesperado desfecho. Na primeira parte de Usina acompanhamos o regresso ao seu mundo anterior. Na longa viagem do trem do sertão o leitor é convidado a mergulhar nas lembranças de Ricardo na prisão de Fernando de Noronha. Isso mesmo, a bela ilha pernambucana era um presídio. O Presídio de Fernando de Noronha teve origem na lei n. 52, de 3 de outubro de 1833.

De lá retornava Ricardo (imprescindível a leitura do livro para um completo entendimento), e ao chegar se dá conta de que o velho mundo que deixou para trás anos antes já não existe mais.


Acompanhando toda a evolução e modernidade que chegava pelos trilhos, o belo engenho Santa Rosa deu lugar à Usina Bom Jesus, do senhor de engenho em ascensão Dr. Juca.

"Os jornais da Paraíba deram notícias, falando no progresso que entrava para a várzea do Paraíba, no gênio empreendedor do dr. José de Melo, na riqueza que seria para o estado um empreendimento daquele gênero." Pág. 89

A segunda e mais longa parte do romance é dedicada à saga da família de Juca, sua mulher e suas filhas, bem como todas as tranformações ocorridas ali e as consequências para os moradores.

Mais uma vez, a maestria de Zé Lins entra em ação, como um maestro comandando uma orquestra. É latente a descrição do método de escravidão que imperava naquele mundo, quase palpável pela pena de seu autor.

A narrativa de Usina expõe a forma cruel e contundente como era usufruída a mão de obra escravista, tal como se vê no neste excerto:


"Os moradores antigos do Santa Rosa haviam emigrado para outros engenhos, atrás de uma servidão que não fosse tão pesada. Eles mesmos não culpavam o dr. Juca. Era a usina que mandava nas coisas (...) Por onde houvesse esteira de usina, morador só valia para o eito." Pág. 160


Coração de usineiro


O filho do velho Zé Paulino, agora também senhor de engenho Dr. Juca, representa o rompimento de um legado, o divisor de um mundo antigo que deixou de existir para dar lugar ao futuro, que não foi recebido com loas pelos seus, mas que, no fim das contas, era inevitável sua chegada e estadia. Toda essa transformação não podia ser chefiada nos métodos dos antigos senhores de engenho, mais precisamente na figura de José Paulino.

"Usina pedia terras livres para cana. Do contrário, teria que estragar o seu trabalho se fosse amolecer o coração. Havia muita diferença dum coração de senhor de engenho para um coração de usineiro." Pág. 215

Era preciso pulso forte e determinado (o que, como sabemos, não era tarefa para o frouxo Carlos de Melo, em Banguê) para comandar e sobressair-se na guerra entre usineiros.

Sim, porque é uma verdadeira guerra de grandes usineiros que vamos lendo nas 350 páginas do livro.

Toda a trama de Usina é narrada em detalhes. Nota-se o esforço de seu autor em costurar a história sem deixar pontas soltas. Uma das coisas que mais nos chamam a atenção são as consequências inevitáveis que a instalação dos grandes monstros que comiam a várzea trouxe à Natureza e ao ambiente. A degradação das usinas ao meio ambiente também é exposta, bem como a perda das terras de seus antigos moradores, os verdadeiros donos dela. Não por acaso, por diversas vezes a narrativa assume o tom de denúncia.


“A usina arrasara o Paraíba com a podridão de suas caldas. O povo cavava cacimba na beira do rio, furava até encontrar água salobra. E era assim que se defendia da sede , nos meses de seca. A Bom Jesus agora despejava as suas imundices pelo leito do rio, sujando tudo, chamando urubu. E quanto mais a usina crescia, quanto mais crescesse, teria imundice para despejar." Pág. 220


Ler todo o ciclo da cana de açúcar foi uma das melhores experiências que tive enquanto leitor. Ainda me lembro, quando abri as páginas de Menino de Engenho que não fazia ideia do que encontrar. José Lins do Rego soube como ninguém arrebatar o coração do leitor, fazê-lo se emocionar e se indignar. Vou levar para sempre no coração e na alma todos esses livros, suas histórias, seus personagens, as paisagens do sertão, e a poesia que exala de suas páginas.


Fonte: REGO, José Lins do, 1901 – 1957. Usina/José Lins do Rego; [apresentação José Luiz Passos]. 20.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

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