• Parada Literária

O Moleque Ricardo - José Lins do Rego

Atualizado: Fev 14

Ciclo da Cana de Açúcar - livro 4: O moleque Ricardo (1935)

Romance


Wow! Mais uma obra de peso do velho Zé Lins! Esboçar uma resenha de O moleque Ricardo não é tarefa fácil. O romance é multifacetado, como veremos, porque abarca uma série de questões e assuntos. Este quarto volume do ciclo se encontra no meio do caminho. O negro Ricardo, que antes era apenas mencionado, passa a ser o protagonista do mundo criado por José Lins do Rego. Vale mencionar que as características de personalidade de Ricardo diferem e muito das de Carlos de Melo. Ao decorrer da leitura vai nos dando aquela vontade de tirar o moleque do livro e dar um abraço nele!


“Quando o sono não chegava, era ruim para ele, porque a cantiga dos homens bulia com o coração do negro. Coração feito mais de carne do que os dos outros.”

O tema levado às páginas de O moleque Ricardo também difere dos outros romances: os ‘aperreios’ dos operários. Nesse sentido, esse quarto volume do ciclo ganha um viés panfletário, sem se tornar piegas ou clichê. E Zé Lins não tratou do tema com floreios. Os problemas vividos pela classe operária estão narrados de forma crua e direto ao ponto:


“Ninguém fosse falar ao governo em favor de operário. O governador queria fazer uma limpa na cidade, porque a canalha não deixava ninguém descansar com esta história de greve todos os dias.”


Se nas três narrativas anteriores a atenção e o foco narrativo é o engenho (com exceção de Doidinho) e a representação do coronelismo estava centrada em Zé Paulino, em O moleque Ricardo o microcosmo passa a ser a padaria de seu Alexandre, ele mesmo como a figura do coronelismo industrial, como o ‘grande patrão’.


O moleque Ricardo é considerado o romance satélite no ciclo porque marca o momento da transição, em vários aspectos:


a) O mundo rural do engenho não é mais o palco da ação, embora por diversas vezes Ricardo traz à tona suas memórias vividas no Santa Rosa. Essas memórias vêm em forma de flashbacks, ora nas lembranças do moleque, ora na voz do narrador.


b) O moleque Ricardo pode ser entendido, num contexto mais amplo, como a representação da transição do campo para a cidade, dos engenhos para as usinas:


“Do negro besta que chegara do engenho ia uma diferença enorme. Não era que tivesse ficado ruim, se perdido na cidade. Não. O que ele tinha era aprendido a viver mais um pouco. Era difícil aprender a viver, custava muito, empenhava-se o que se possuía de mais puro para se chegar ao fim. Agora a cidade era sua.”


Como vimos em Banguê, a decadência do império dos engenhos começa a tomar forma. O mundo rural de Carlos de Melo se despedaça em suas mãos. O personagem Ricardo representa essa transição, em que logo no primeiro capítulo, que é de cortar o coração, o menino deixa o engenho Santa Rosa no trem para Recife.


Intertextualidade

Um dos poemas mais belos da literatura brasileira, Morte e Vida Severina (1954-55), de João Cabral de Melo Neto, trata exatamente do retirante que emigra do agreste do sertão para a cidade, também em Pernambuco. E na caminhada de Severino ele citou a chegada da usina e a “morte” dos engenhos:


"Com a vinda das usinas

há poucos engenhos já;

nada mais o retirante

aprendeu a fazer lá?"

Também em 1935, Jorge Amado publicava o seu Jubiabá, protagonizado pelo negro Antônio Balduíno. Embora tematicamente diferentes, o romance de Jorge explora em menor escala o mesmo tema da greve dos operários na Bahia. Há também paralelos que podem ser traçados entre Baldo e Ricardo:


“A história de Balduíno, com seus amores, suas lutas, suas bebedeiras e sua profunda solidão, pode ser lida como a jornada de um homem bruto, de poucas luzes, em direção ao entendimento do mundo em que vive e do lugar que nele ocupa.”


Um moleque para guardar no coração


Durante a leitura deste quarto volume, nos deparamos com um personagem partindo em busca de um futuro melhor para si e para a família. Nesse percurso, encontramos o moleque do Santa Rosa vivendos muitas aventuras na cidade grande, descobrindo a vida entre dores e alegrias, se deparando com a solidão, com amores que vêm e vão, e com a morte que o deixa dolorido e decepcionado.

Haveria ainda tantas coisas para serem ditas: a forma poética tão peculiar na obra de Zé Lins que encanta o leitor, sua incrível habilidade para descrever a chegada da morte, mas posso afirmar que, junto com Menino de Engenho, este livro deixou marcas em mim.

A continuação da saga de Ricardo é narrada no próximo volume do ciclo, Usina.


Fonte:

REGO, José Lins do, 1901-1957. O Moleque Ricardo/José Lins do Rego; [apresentação M. Cavalcanti Proença]. 28ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011.

MELO NETO, João Cabral de. Morte e Vida Severina e Outros Poemas. João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

AMADO, Jorge. Jubiabá/Jorge Amado; posfácio de Antônio Dimas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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