• Parada Literária

Maria Altamira - Maria José Silveira


A cidade de Altamira, localizada no Pará ao longo do rio Xingu, é o palco onde desfilam os personagens desta história emocionante e dolorosa. Mas não é lá que tudo começa e acontece...

Huascarán National Park, Peru

1970. Yungay, Peru.

Em 31 de maio de 1970 um terremoto de magnitude 7,9 na escala Richter atingiu o litoral norte do Peru. O abalo sísmico provocou um colapso na face norte da montanha, no vale de Huascarán, o que resultou em um desprendimento de uma gigantesca massa de gelo e rocha. A monstruosa avalanche atingiu rapidamente a cidade de Yungay, que fica no vale abaixo da montanha. A massa de Gelo e rocha soterrou a cidade, matando mais de 17 mil pessoas. Segundo consta, apenas 400 habitantes sobreviveram, pois se refugiaram no cemitério da cidade que fica sob uma colina.


Maria Altamira

Alelí foi uma dessas sobreviventes. Mas não, ela não é feliz por isso. Sua família, seu namorado, sua filha pequena, e todo seu passado ficaram para sempre enterrados em Yungay.


Com sua vida completamente abalada ela parte sem rumo, passando por várias cidades de ônibus, camionete e a pé, até chegar a São Féliz do Xingu, no Pará – e conhece o índio Manuel Juruna da etnia Yudjá, com quem tem uma filha: Maria Altamira.


Rio Xingu, Brasil.

O rio Xingu, de 1.979 km de extensão, corre do cerrado na região central do estado do Mato Grosso, rumo ao norte na Amazônia. A sua bacia cobre uma área de 531.000 km². 25.000 índios, de 18 grupos étnicos distintos, vivem ao longo do Xingu.

"etnocídio | s. m.

1. Destruição metódica da cultura de um grupo étnico.

2. O mesmo que genocídio.

(dicionário Priberam da língua portuguesa)


Hoje altamente ameaçado, o rio corre sério risco de morte em decorrência dos impactos causados pela usina hidrelétrica de Belo Monte, construída a partir do ano de 2015.



O que é a usina hidrelétrica de Belo Monte?

Belo Monte é o terceiro maior projeto hidroelétrico do mundo requerendo que quase todo o fluxo do rio Xingu seja desviado através de dois canais artificiais, deixando comunidades indígenas ao longo dos 100km da Volta Grande do Xingu sem água, peixe ou meio de transporte.

Desde que a usina barrou um pedaço do rio Xingu, no final de 2015, mais de 200 famílias de pescadores que habitam o trecho de 100 quilômetros entre as cidades de Altamira, Anapu, Senador José Porfírio e Vitória do Xingu viram sua fonte de renda e de alimentação diminuir.


Intertextualidade: A literatura como arma

Não é a primeira vez, e não será a última, que a literatura serve como arma para apontar o abuso e a ambição humana que oprimi seu igual e altera o estado da Natureza e o ambiente. No início do século 20 uma forte onda de industrialização e modernização se iniciou no nordeste brasileiro. Curiosamente, o paraibano José Lins do Rego foi o responsável por levar para nossas letras todo o mundo dos engenhos e seu derradeiro fim, com seu famoso ciclo da cana de açúcar. Nesse aspecto, o romance Usina, de 1936, é o livro que mais se assemelha ao de Maria José Silveira por também tratar de temas urgentes: a chegada e construção de grandes usinas que mudaram para sempre o cenário das cidades do interior do nordeste, mudando cursos de rios e alterando o modo de vida dos moradores.


Maria Altamira: origem e destino

Este é apenas o fundo histórico e social que envolve toda a trama do incrível romance de Maria José Silveira. A heroína da história, no mais puro significado da palavra, se opõe ao projeto conhecedora de todos os riscos e males advindos dele para seu povo.

Sim, Maria Altamira, que carrega a cidade no nome, pois é filha de Alelí com o índio Manuel Juruna, não leva a paixão por suas origens apenas no nome de batismo: ela os leva também no coração e na alma!

E não adianta fugir: Maria Altamira, como tantos outros iguais a ela, consegue a oportunidade de ir a São Paulo a fim de estudar e se arranjar profissionalmente. Lá na cidade de pedra seu mundo se expande como a imensidão do rio Xingu, e ela entende seu papel no mundo e, anos depois, volta às suas origens. O regresso a sua cidade é marcado por transformações, decepções, surpresas e encontros.


A autora eleva o tom de denúncia e revolta ao volume máximo, fazendo com que suas personagens ergam a voz para gritar e pedir socorro. Mas o socorro não vem! E é com o coração na mão, apertado, que vamos acompanhando o desenrolar dos acontecimentos como uma avalanche vinda sobre nós, impotentes, tal qual uma avalanche após o terremoto.

Nas páginas de Maria Altamira está documentado um recorte da nossa história que parece distante, mas infelizmente não está; está logo ali atrás, situado apenas há alguns anos antes deste.


E a literatura mais uma vez nos ensina.

Nos ensina a não nos calar.

Nos ensina a documentar as vozes do nosso povo que autoridades não querem ouvir.

Maria José Silveira

São livros como este que nos mostram que a arma eficaz contra a brutalidade e a opressão não é aquela que mata e cala, ao contrário, a verdadeira arma é feita de papel e tinta que vivifica, dá voz a quem não tem, denuncia e expõe.

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As fontes com informações citadas nesta resenha se encontram em:

https://apublica.org/2019/12/no-xingu-finalizacao-da-ultima-turbina-de-belo-monte-pode-significar-o-fim-do-rio/


https://archive.internationalrivers.org/pt-br/campaigns/rio-xingu-brasil


https://operacaofederal.com.br/altamirapa/


https://archive.internationalrivers.org/pt-br/campaigns/rio-xingu-brasil


https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/07/estudo-confirma-ameaca-de-belo-monte-biodiversidade-do-rio-xingu.html

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