• Parada Literária

Fogo Morto - José Lins do Rego

Ciclo da Cana de Açúcar - livro 6: Fogo Morto (1943)

Considerada a obra prima de José Lins do Rego, Fogo Morto encerra o ciclo iniciado dez anos antes.

Como todo ciclo, o processo de produção dos engenhos de açúcar também chega ao fim. Quando um engenho não mais produz é chamado de fogo morto. Portanto, fogo morto é, nesses termos, a morte de um engenho.


O último romance do ciclo (não da produção literária do autor), é o mais robusto e inovador em termos de arte e estrutura em comparação aos anteriores. Fogo Morto rompe com a forma dos romances anteriores. Sua arquitetura é diferente e não apresenta as características memorialistas presentes de Menino de Engenho (em maior grau) a Usina (em menor grau).


Dividido em três partes que conversam e se correlacionam, Fogo Morto apresenta três personagens centrais diferentes, mas tão iguais, que conferem estética e harmonia ao universo ficcional do romance. Cada parte dedicada a um deles:


José Amaro

O mestre José Amaro mora com sua família, sinhá Adriana e sua filha Marta, na estrada que conduz à vila, por onde transitam os personagens do livro. Nada é por acaso, nem a localização de sua casa. José Amaro representa a resistência e afetividade, situando-se à margem das transformações econômicas e sociais e preso a um modo de produção pré-capitalista. Esse caminho é estratégico, pois passam pela porta de sua casa todos os personagens do romance, parando vez ou outra para trocar um dedo de prosa com o mestre. Amaro era artesão e vivia nas terras do senhor de engenho Lula de Holanda, portanto dependente do patriarcado rural, mas não era “servo” do senhor de engenho. Não obstante, em José Amaro é perceptível essa relação de dependência, uma vez expulso pelo dono da terra a qual vive, transfere-a ao cangaceiro Antônio Silvino, que vê nele sua possível salvação.


Lula de Holanda

Personagem bastante peculiar na obra, Lula de Holanda representa a decadência do patriarcado dos senhores de engenho. Herdou o engenho Santa Fé do sogro ao casar-se com Amélia. Porém, é um engenho pequeno de produção cada vez menor, simbolizando a ruína de sua própria família e o fim de uma era. Lula de Holanda, bem como sua família, procura resistir agarrando-se ao passado, inserindo-se no mundo com base nos moldes de uma sociedade escravista ultrapassada. Com seu famoso cabriolé tilitando pela estrada, Lula e sua família refletem a derrocada da riqueza de outrora e o apego ao passado, numa tentativa de manter os padrões da glória que deixou há muito de existir no engenho Santa Fé.


Capitão Vitorino

Considerado o Quixote sertanejo brasileiro, Capitão Vitorino Carneiro da Cunha é o personagem que unifica o romance. Apesar de divido em partes, Fogo Morto apresenta unidade, e Capitão Vitorino se faz presente em todas elas, convergindo as ações da narrativa para o ‘gran finale’. Assim como o personagem de Cervantes, o Quixote de Zé Lins é cômico e dramático a sua maneira, descompassado em seu contexto. Sendo motivo de burla para os garotos, apelidado de Papa-rabo, perambula com sua mula pelo sertão, tão descompassada quanto ele; um personagem com perspectiva futurista aspirando à prefeitura do Pilar. É nele que se projetam as ações de justiça e solidariedade, lutando sempre a favor dos oprimidos.


Passado, presente e futuro: o tempo em Fogo Morto


Três personagens, três persepctivas de tempo que se afunilam:

José Amaro volta-se para o presente, para a condição social e econômica que se encontra, sendo mestre artesão orgulhoso. Lula de Holanda tem sua perspectiva e ações sempre voltadas ao passado, arraigado no passado escravista do qual não abre mão, jamais aceitando as modificações ocorridas com a abolição. Como apontado anteriormente, a perspectiva de futuro em Fogo Morto fica a cargo de Capitão Vitorino, que do alto de sua mula, “animal de primeira ordem”, representa o heroi do sertão, a figura que se engaja em defesa dos que se encontram acometidos de injustiças.


Todos eles, juntos, formam a tríade que dá ação e o tom do romance. Numa visão mais abrangente, Fogo Morto é a síntese de todo o ciclo. Alguns dos personagens dos livros anteriores aparecem ou são citados, sendo impossível detectar o tempo específico em que se passa a narrativa.


Loucura e decadência


É explícito ao leitor a presença da loucura no livro. Os três personagens centrais apresentam traços psicológicos que denunciam sua sanidade. Com José Amaro a loucura é personificada na personagem Marta, sua filha, onde a descrição das cenas finais de ataque são de extrema carga dramática.

Já em Lula de Holanda, a loucura é explicitada nos seus ataques de epilepsia, bem como na filha Olívia, que apresenta os mesmos traços de demência de Marta.

Mas é em Capitão Vitorino – o Papa-rabo – que ela se expressa de maneira cômica, com caráter humanístico e solidário, como apontado ateriormente.


A loucura pode ser entendida como fuga da normalidade, o escape, pois a realidade daquele mundo aprisiona e sufoca, enraizados todos eles a um destino que não há como fugir.

Caminhando para o fim, eles apontam o enfraquecimento de uma estrutura social e econômica prestes a deixar de existir.

Fogo Morto é uma obra tão vasta e que abrange tantos assuntos, que um único texto não daria conta de toda vastidão e importância da obra.


A despedida


O ciclo da cana de açúcar foi uma jornada que começou em maio de 2020 e se tornou uma das coisas mais lindas que li na vida. Foi uma tremenda aula de história, carregada de poesia, de cheiro, de cor e de música. Eu escrevi em resenhas anteriores que José Lins do Rego tem o dom de descrever detalhadamente cenas emotivas, com drama e dor quase palpável.


Durante minha jornada de leitor Zé Lins foi o único escritor que conheci que descreve a morte de maneira pausada, com dor, com tristeza, e durante várias páginas. Lendo as narrativas do ciclo nos deparamos com a morte se aproximando lentamente. Para o autor um personagem não morre simplesmente e ponto final. Não. O tempo fecha, o céu outrora azul dá lugar ao cinza nublado e triste. Uma chuva fina começa a cair. Os urubus vão chegando, anunciando que o fim se aproxima.


Valeu a pena as horas despendidas com cada livro, os três últimos, inclusive, com mais de 300 páginas. Fui transportado ao sertão da Paraíba, vi o engenho moer, senti o cheiro doce do mel entrar pela janela, senti a dor daqueles que perderam o direito à terra, que afinal era deles, e ouvi o apito do trem do sertão, partindo e deixando saudade.

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Fogo Morto foi levado ao cinema, rodado em 1975 e lançado no ano seguinte. As filmagens foram feitas na Paraíba, onde nasceu o escritor. O filme está disponível no YouTube.


Fonte: REGO, José Lins do, 1901 – 1957. Fogo morto/José Lins do Rego; apresentação Benjamin Abdala Jr. 81ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2018.

Prefácio desta edição: Benjamin Abdala Jr. Professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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