• Parada Literária

Fiados na esquina do céu com o inferno - Eury Donavio

Atualizado: Mai 23

ou A missão de um cabra macho da mulesta de trazer a chuva de volta ao sertão

Na enxurrada de produções literárias atuais o ambiente urbano e a ênfase em tratar das mazelas da sociedade e problemas socio-políticos consome boa parte da literatura que é produzida hoje no Brasil. Com isso, a estética, a linguagem e a cultura representadas em nossas letras foram deixados para trás.

Mas ainda há esperança. Um certo cabra, lá do sertão, resolveu escrever uma história com raízes na terra, com personagens originais e vocabulário próprio, e nos trouxe um livro incomparável, que nem parece livro de estreia.


O Realismo Mágico do sertão


Há uma guerra acontecendo, a guerra da seca, e nessa guerra um cabra macho foi destinado a procurar e matar o Fazedor de Seca, o diabo responsável por fechar a torneira do céu. Esse cabra macho da mulesta é o narrador da história, apelidado de Matador. É um sertanejo arretado que carrega consigo um caderno de fiados, as injustiças e ofensas dirigidas a ele durante a vida.

Um encontro sobrenatural num boteco que fica “na esquina do céu com o inferno” muda o destino do Matador. Com versos de cordel, um ser mulambento aparece e diz ao heroi do sertão que ele é o escolhido para dar fim ao diabo fazedor de seca. Porém, o tempo é curto. O Matador só tem dois dias, deve executar o serviço antes do dia de São José.


“A guerra da seca é suja. Embaralha vidas sem perguntar quem deseja lutar e não concede luxo de escolher um lado, só distribui embustes e promessas, empurrando pobres almas para sacrifícios inúteis.”

No encalço do tinhoso, o Matador empreende uma viagem pelo sertão e aproveita para acertar seus fiados. Ao longo da história o narrador conta fatos da infância e juventude, como um tear, e vai tecendo a narrativa e costurando a história, regado a bastante cachaça. O desfecho de tudo isso é simplesmente espetacular e surpreendente!

O realismo mágico no livro de Eury toma proporções épicas. O real e o sobrenatural se fundem para criar uma história carregada de significados, com personagens singulares e representantes de um povo castigado pelo clima.

A linguagem tão regional é a cereja do bolo. O autor se vale de neologismos com base no léxico local para derivar outras palavras em língua portuguesa, e o resultado é encantador.


De volta às origens


Fiados na esquina do céu com o inferno é um livro que exala brasilidade, da primeira página à última. O sertão de Eury é uma homenagem à cultura nordestina (e por que não, brasileira), e à linguagem. O livro não se debruça sobre as mazelas da seca e o sofrimento do povo sertanejo, tampouco narra a saga de retirantes. Fiados na esquina do céu com o inferno é um retorno às origens, ao nosso sertão tão amado e tão sofrido. O escritor trouxe de volta à literatura brasileira um texto todo nosso, com nosso sotaque e nossas crenças, nossa linguagem e nossas expressões intraduzíveis. Amantes de João Guimarães Rosa e Ariano Suassuna reconhecerão no livro de estreia de Eury toda a beleza de uma composição 100% brasileira.

É um livro diferente de tudo o que já se produziu até então. Delicioso de ser lido, ágil e cômico, Eury Donavio nos prova que ainda há boa literatura vinda do sertão. A obra foi vencedora do Prêmio Literário Cidade de Manaus 2019 e Menção Honrosa no Prêmio Aluísio Azevedo.


Sobre o autor:

Eury Donavio é natural de Floresta do Navio, sertão de Pernambuco. Morador de Recife, engenheiro civil e mestre em ciência da computação, apostou no projeto de escrever a partir dos quarenta anos de idade. Dedicou nove anos a pesquisas, viagens e escrita para aprontar este livro de estreia.


Deixe de pirangagem e leia o livro, oxe! Num se aperreie não abestado!

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