• Parada Literária

Boca do Inferno - Otto Lara Resende

Atualizado: 28 de Dez de 2020

Contos

O escritor argentino Julio Cortázar popularizou uma frase na qual se dizia que na literatura o romance se assemelha a uma luta de boxe em que se ganha por pontos, enquanto o conto se deve ganhar por nocaute. É a velha máxima utilizada por todos aqueles que encontram pelo caminho excelentes exemplares de contos (ou contistas) em que a frase de Cortázar se aplica.

Faço justo uso aqui da mesma máxima para um livro de contos um tanto esquecido e pouco falado: Boca do Inferno, de Otto Lara Resende.


Otto Lara Resende (Pajé, tratamento dado por Fernando Sabino) fez parte de uma leva importante de escritores que figuravam a literatura brasileira nos idos do século XX, dentre eles Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, todos os quatro amigos íntimos. Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Rachel de Queiroz, e muitos outros.


Boca do Inferno é o segundo livro de contos publicado por Otto, em 1957. Na época de sua publicação essa obra deu o que falar à crítica literária, um verdadeiro rebuliço com direito a notas difamatórias publicadas na imprensa de uma agressividade atroz com o pobre Otto... e após a leitura eu entendi o porquê.


Paulo Mendes Campos, seu amigo, escreveu o seguinte após a publicação: “Eis aqui um livro de contos e sem literatura. As sete narrativas reunidas em Boca do Inferno são descarnadas, agressivas e deprimentes como argumentos cinematográficos do neorrealismo italiano. Os enredos esquemáticos pouco importam: o ângulo quase documentário em que se coloca o narrador dessas sete histórias sobre meninos define o livro.”

É claro que eu discordo do Paulinho!


No entanto, ainda que poucos, seu livro recebeu alguns louvores, dentre eles um que elogiou a densidade da atmosfera noturna, a acuidade psicológica e a audácia da concepção: três ou quatro contos de Boca do Inferno figuram entre os mais fortes que temos lido nos últimos anos. (Bernardo Gersen. Diário de Notícias, 31 de março de 1957)

O mais significativo e interessante veio do próprio Fernando Sabino, em uma carta enviada em 22 de junho de 1957, publicada no livro Cartas na Mesa:


“Quanto à literatura, descobri porque você foi chamado de tarado, mas isso é conversa fiada. (Pela mesma razão que se poderia chamar o Rodrigo Melo Franco de necrófilo, ou coisa parecida, por ter escrito um livro de contos chamado “Velórios”.) Em suma: é problema extraliterário – não há razão nenhuma para se aborrecer com isso. O importante é que o Boca do Inferno vai fazendo sucesso, é capaz de já estar se esgotando.”


Para se ter uma ideia, a partir de então Otto Lara Resende nunca mais autorizou a republicação desse livro. Só em 1998, cinco anos após a morte do escritor mineiro, a família autorizou a reedição. Os sete contos do livro são reunidos por unidade temática, seus protagonistas são crianças, e o espaço é o campo.


Vale apontar que hoje, ao que tudo indica, as coisas estão mais "relax" pro lado do Ottinho, mas realmente uma pena que ele não esteja mais entre nós pra ver isso!

É difícil tecer comentários sobre esta coletânea. É ao mesmo tempo intenso e chocante. Ao final de cada conto tive de parar para respirar e digerir o que eu tinha acabado de ler. Sufocante em alguns casos! A paisagem é muito bem descrita pelos narradores, e Otto soube criar uma atmosfera densa.


Um pequeno trecho da fortuna crítica da nova edição diz que, em Boca do Inferno, há um deslocamento do ponto de vista. A violência e o deslocamento do mundo irrompem na pequena cidade, no seio da família, no redemoinho da infânica.


Assim como em seus três amigos da vida e da literatura, a qualidade de seu texto é notável e não se pode negar. Os contos são bem narrados, concisos, bem escritos, com personagens bem construídos, tudo para realmente dar um nocaute no leitor. Pelo menos comigo, ele conseguiu!

Esta nova edição traz ao final uma fortuna crítica completa, com todo o panorama e recepção na época de sua publicação, escrita por Augusto Massi. Quem não conhece a obra deste escritor mineiro ou de seus amigos Fernando, Paulo e Hélio, fica aqui a recomendação!


Referências:

RESENDE, Otto Lara. Boca do Inferno: contos/Otto Lara Resende; posfácio Augusto Massi. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

SABINO, Fernando. Cartas na Mesa/Fernando Sabino. Rio de Janeiro: Record, 2002.

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