• Parada Literária

A Luneta Mágica - Joaquim Manuel de Macedo

Romance

“E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” - Gênesis 2:16-17


Foi no tempo do Brasil colônia, na então capital do Império Rio de Janeiro. Havia um rapaz, muito bem apessoado, terminando o curso de medicina no ano de 1844. O nome dele era Joaquim Manuel de Macedo. O Romantismo na Europa estava indo de vento em popa e por aquele tempo ainda não havia aportado em terras tupiniquins. O rapaz Joaquim, no mesmo ano 1844, publicou então um romance bem brasileiro intitulado A moreninha. Pronto, estava inaugurado no Brasil o Romantismo! Por causa disso, seu autor incipiente, o Macedinho, ficou famoso e ganhou muito dinheiro, abandonando a medicina. Mas não é A moreninha o foco deste texto. Em 1869, Macedinho, como ficou popularmente conhecido, publicou aquele que viria a ser um dos livros mais diferentes já escritos no Brasil e, no entanto, pouco lido e comentado hoje:


A luneta mágica


Simplício é um homem ingênuo e míope, mas sua miopia era rara, pois, segundo o próprio personagem, trata-se de uma miopia física e moral. Ele é o narrador e inicia sua história explicando:


“Miopia física: a duas polegadas de distância dos olhos não distinguo um girassol de uma violeta.

Miopia moral: sou sempre escravo das ideias dos outros; porque nunca pude ajustar duas ideias minhas.”


Essa condição leva-o a depender totalmente de seus três parentes: o irmão Américo, a prima Anica e a tia Domingas. Os pais de Simplício eram muito ricos e lhes deixou avultada fortuna em poder de seu irmão, dada a incapacidade de Simplício de cuidar dela.

Simplício, como seu próprio nome induz, é simples de alma e inocente, acreditando piamente em seus parentes na condução de sua vida e destino. Acontece que o rapaz tem um árduo desejo: ver.


Será a tua próxima convicção de que é melhor ser cego do que ver demais."

O rapaz míope é apresentado a um personagem chave na vida de Simplício e na história: Reis. É esse que irá apresentar ao míope um mágico feiticeiro capaz de devolver-lhe a vista, o armênio, e seu nome só aparecerá (brilhantemente) ao final do romance.

A cena da criação do tão sonhado objeto que devolverá a vista a Simplício é um incrível ritual de magia, descrito pormenorizadamente no qual o míope participa sem nada ver. Terminado o ritual, o armênio deposita nas mãos de Simplício a luneta mágica, junto com uma advertência:


“Esta luneta é a maravilha da magia: por ela verás demais no presente, e poderias ler no futuro; mas o teu coração é bom e a tua alma é pura, criança; além do número de três minutos está a visão do mal, que o meu poder de mágico não te pode impedir (...); mas a fixidade dessa luneta além do número de treze minutos é a vidência do futuro, e esta eu ta impeço (...), eu ta impeço criança louca: essa luneta fixada além de treze minutos se quebrará em tuas mãos!”


A partir daí tem início uma das histórias mais instigantes e interessantes que já li até hoje.


O bem e o mal: muito além das aparências


Joaquim Manuel de Macedo construiu uma narrativa que não condizia com os moldes dos livros publicados à epoca do Romantismo. A luneta mágica foge à tradição temática proposta pelos ideais românticos nas obras daquele momento. Por isso, e é importante destacar, que A luneta mágica é considerada por críticos como uma fábula e se encaixa como obra precursora do que no século seguinte se intitularia realismo mágico, tendo como representante máximo no Brasil o escritor Murilo Rubião.

A obra de Macedo é rica em detalhes, descrições e alegorias no que se refere a questões tão humanas: o bem e o mal. Simplício na sua puerza é levado por caminhos bem tortuosos ao fazer uso de sua luneta que lhe dá primeiramente a visão do mal, fixando-a em tudo e todos por mais de três minutos, desobedecendo a ordem do armênio. A desobediência, inlcusive, é inerente ao humano, não podendo dela livrar-se, mas não é só isso e não é esse o foco. Num primeiro momento tudo o que Simplício tem, e que nós enquanto seres sociáveis também temos, é a visão da superfície e das aparências das coisas. Não conhecemos profundamente nada. A visão do mal mostra a Simplício o conhecimento do caráter de todos aqueles que o rodeia, levando-o a odiá-los todos, inclusive seus parentes. No entanto, a luneta mágica torna-se uma perigosa armadilha e faz do míope um severo juíz. A situação chega a tal ponto que o pobre rapaz é acusado de doido e alienado:


“Doido por quê?... Porque tenho o privilégio de descobrir o mal que se dissimula; e porque não há máscara de hipocrisia que resista à minha luneta mágica!”


Estaria ótimo até aí e nós, Simplício e leitores, já teríamos aprendido a lição. Mas não. Macedo constroi um jogo de espelhos, mostrando que do outro lado está o oposto, o que chamamos de “bem”. Engana-se o leitor que pensa que todos os problemas estariam resolvidos. A realidade é completamente distorcida pela luneta nos dois lados. O bom e o mau é posto à prova nas páginas da obra levando o leitor a confrontar o que se entende por “maldade” e “bondade”.

Lembra-se de Reis? Ele é o ponto de equilíbrio na vida do pobre míope e também exemplo de ponderação no romance, uma vez que não acredita nas artes mágicas do armênio e menos ainda no poder da luneta.


Crítica social e política exposta pela luneta mágica


O ano era 1869. Dom Pedro II atravessava a pior crise desde o início de sua regência. Macedo foi político atuante durante o governo de Pedro II participando, inclusive, do instituto criado por ele em 1838 – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Ele viu de perto toda a burocracia e mazelas da política e sim, elas estão todas muito bem representadas em A luneta mágica.


“Creia que há magias em cada canto; olhe: como é que empregados públicos e homens de todos os misteres e condições vivem, ganhando cinco, e gastando cinquenta em cada ano? Só por magia.”


Macedo usa de Simplício para semear no romance suas percepções e críticas políticas e sociais, pincelando a história de muita ironia e sarcasmo, e umas boas pitadas de humor. Ao escrever A luneta mágica o autor coloca em nossas mãos também uma luneta e nos dá a oportunidade de nos enxergarmos, de avaliar nossas ações e julgamentos, e nos colocarmos de frente ao espelho e ver de fato quem somos.


A luneta mágica é uma obra extremante prolífera e um simples texto como este não dá conta de extrair tudo o que o livro proporciona, e escrever mais que isso seria entregar demais ao leitor. Se você chegou a esse texto e leu até aqui deixo mais que uma recomendação, uma intimação: leia A luneta mágica. Uma obra tão incrível como essa não pode passar despercebida ao leitor brasileiro.


Sobre o autor


Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) ganhou fama e riqueza no Brasil império com a publicação de A moreninha, em 1844. Essa obra marcou o início da prosa romântica no Brasil alcançando o status de best-seller e criando o primeiro mito sentimental brasileiro: da menina morena e brejeira, causando forte identificação com o ainda embrionário público da época.

Macedo se dedicou à Literatura abandonando a Medicina. Publicou em torno de trinta obras, entre ficção e dramaturgia. Também desempenhou atividades relacionadas ao jornalismo e foi professor de História e Geografia no Colégio Pedro II. Participou do Instituto Geográfico e Histórico Brasileiro, criado por Dom Pedro II, a partir de 1845 e foi político atuante pelo Partido Liberal.


Referências:

MACEDO, Joaquim Manuel de. A luneta mágica. 2. ed. São Paulo: Martin Claret, 2012. – (Coleção a obra-prima de cada autor; 110)

MACEDO, Joaquim Manuel de. A moreninha. 6. ed. São Paulo: Martin Claret, 2011. – (Coleção a obra-prima de cada autor; 9)

A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e atualizada no Brasil. 2. ed., em letra grande. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000. 1504 p.

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